Trecho do livro: "O menino do deserto.
Não costumo tentar explicar o inexplicável, ou questionar o tenebroso, o racional, o irracional, o lúcido ou o louco!
Você está dirigindo em uma noite escura e chuvosa, o carro quebra, justo quando está sozinho.
Você procura ajuda, um telefone, não encontra.
Após uma breve caminhada, depara-se com uma casa em meio ao nada.
Uma casa em ruínas, não é estranho o quanto ela lhe parece familiar? Embora você nunca tenha estado ali antes.
Talvez os escritores e os loucos expliquem tantas coincidências, tantos clichês.
Você está com medo, apavorado, sente algo errado.
Então, por que diabos você entra?
Você entra porque precisa de respostas na sua infortunada vida.
Lá dentro, os olhos do inexplicável começam a lhe observar. Sentindo em você uma porta generosamente aberta para a psicose e, quando sair, estará levando-a consigo.
Nada existe ou jamais existiu, nada dentro daquela casa, mas a sensação de que houve uma história ali, de que algo um dia aconteceu, lhe faz arder. Então você sente o obscuro, o invisível.
Não se pergunta às vezes por que ninguém nunca os vê? Ninguém nunca os toca? Por que os miseráveis insistem em lhe perseguir e estar ao seu lado? Não se esqueça. Foi você quem abriu a porta.
Você luta contra sua alienação mental, mas sempre procura algo atrás das cortinas, a outra face no espelho.
Teme em ficar só; no entanto, desce escadas escuras no meio da tempestade.
Não há nada à sua frente, então como escapar da dormência da sua racionalidade?
Antes de dormir, você olha embaixo da cama, suspira aliviado por nada ver. Será?
Subitamente, abre as portas do armário e ali está o objeto do teu medo, da tua agonia, o nada, novamente.
Você se sente só, incompreendido, emotivo.
Precisa-se fazer a clássica pergunta; sem ela, nada estaria completo.
“Quem está aí?”.
Tolo!
No fundo, sabe que não haverá resposta, mas se um dia ele resolver dizer: “Eu!”
Você pensa: quem será este “eu” que nunca vi?
Não sei seu nome, não participei de sua vida, não toquei seu corpo. Quem, afinal, ele será?
Eu lhe digo, ele é apenas fragmentos de sua própria história.
Um dia, enfim, você compreenderá.
Que os esquecidos, os incompreendidos, os possuídos não apenas sirvam à sua demência, como se alimentem dela!
Você precisa voltar ao princípio, à “casa”, às ruínas, para encontrar a resposta.
Aquela mesma que você nunca terá…
Porque você é um tolo em acreditar, ser preciso um caminho a ser encontrado.
Se você fosse sábio, você o teria feito.
Autora: Viviani Ketely