16.12.08

*ORATÓRIO DO ANJO*


I
Mandaste-me uma missiva
cheia de vícios
tundas e mistérios
dando-me a incumbência
de prostrar-me diante
da árdua tarefa
de receber teu preclaro amigo
desejo obumbrar-me da mesma
sabes que durante muito tempo
alimentei-me de presas vivas
que se debatiam angustiadas sob
minhas asas.

II
Tua segunda missiva
chegou-me antes do ocaso
quase as vias de lançar-me à cegueira
...vem tu ameaçar-me
de regeneração
pois, devo-lhe fazer saber
que tuas palavras
causaram-me risos
teus avisos são efêmeros
tuas preces inalcançáveis
todavia e com engulho
que hei de lhe cumprir este favor.

III
Faço lhe saber que
cumpri minha árdua tarefa
ainda lhe informo que da mesma
fiz minha vivenda
construí o nicho com repulsa
adornei-o com verônicas
deixei-o aos olhos
embriagado de beleza
tomando o cuidado
de manter-me a salvo
no obscuro.

IV
Pus-me a esperar
pelo teu tão ilustre convidado
com minhas mãos cobertas
de espinhos
e meu ser em cóleras
sedento para dar-lhe um
pouco de lidite.

V
Adormecia junto ao limo
quando sua presença foi anunciada
o vi aproximar-se
em seu misero feixe luzente
caminhei até o tojo
e ali permaneci
vendo-o examinar
o oratório.

VI
Suas mãos acariciaram
a madeira morta
olhou-me de súbito
e colocou-me no chão
seu sorriso lançou-me às nuvens
de onde há muito cai.

VII
Deu-lhe vida ao oratório
enchendo-o de amor
sentou-se
brincou com as flores brancas
guiou-me até seus límpidos olhos
sepultou meu fel
abriu minhas fraquezas.

VIII
Eu que era trevas
coloquei-me aos pés da luz
eu que era medo
tornei-me insignificante
eu que era o 'fim'
recomecei.

"Viviani Ketely"