6.11.08

O Mar



O mar me chamou, me chamou meu senhor;
O mar me chamou, me chamou sim senhor;

Era noite de luar, Oxalá era sim;
E o mar me chamou, me chamou sim;

Feito menino pequeno fiquei escutando;
As batidas das ondas na praia, tão forte batiam;
Que me pus a rezar, à Santa do mar;

Iemanjá perfumou, perfumou o mar;
Perfumou sim senhor, Iemanjá perfumou o mar;

Bem longe! Aonde pouco a vista alcança;
Vinha um barco, hora em cima, hora embaixo;
Batendo nas costas largas do mar;

Dentro dele, tinha um menino, franzino, miúdo, pequeno
Segurava bem forte, bem firme: o mastro seco, pelado do barco;
Sorrindo com as chicotadas; do pai

Não dei muita conta, do moleque;
Arrastei minha carne fraca, prós braços do mar;
Este me abraçou bem forte, quase me arrancou a alma;
Minhas costelas se fizeram em vidro;
Era o mar meu senhor, era o abraço do mar;

Fechei os olhos, fui lá pro fundo, calmo;
Tinha uma brisa tão fresca, que me trouxe de presente;
O cheiro da Maria, doce, suave, suado;

Com medo de perder a visão, abri os olhos de uma só vez;
Só para ver, as cores da alma do mar;
Em noite de luar;

Branco, brilhante, ofuscando o pensamento;
De um velho pescador; trazendo lembranças;
De quando menino; com gosto pela vida; senti saudades;

Os tesouros dormiam, se via um ou outro pequenino;
Se banhando: na luz branca, e calma;
Do mar;

Não sei o que fiz; mas ele – ficou revolto;
E me cuspia, me cuspia o mar;
Pedi perdão, ele nem fez questão;
Na água nervosa, tentava me agarrar;
Estava frio, ele não queria me agasalhar;

O ar que entrava pelas narinas era gelado;
Doía até a alma, tudo ficou negro;
Não sei onde foi parar o luar;

Eu tentava desesperado, voltar para seu leito quente;
Mas ele lançava-me para fora;
Como podia senhor lutar, lutar contra o mar?

Estava cansado;
Pensava: O que fizera de tão grave?

No meio dos castigos do pai:
Minha mão foi encontrada; ficou segura, ficou firme;
Fui arrancado de lá;

Etá! Menino que viaja sozinho, em um barco mais velho do que eu;
Se metendo, onde não é chamado;
Olhei sisudo, para aquele atrevido;
Ele só fazia rir, menino metido a besta;

O mar não me quis meu senhor, não me quis o mar;

'O barco vai se quebrar nas pedras' pensei;
Mas ele passou por cima;
Seria o barco do mar?

Meus pés beijaram a areia, o céu trouxe de volta o luar;
E lá se foi o menino e seu velho barco, se afastando, se afastando;
Até serem engolidos, em um único beijo;

O mar meu senhor, me devolveu;
Pros braços da Maria;

"viviani ketely"